segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Love me tender, love me sweet. Never let me go.


    
      A casa continuava do mesmo jeito que ela havia deixado algumas roupas estendidas no varal, a vassoura encostada ao lado da porta dos fundos e um bilhete em cima da cama: “Bom dia Amor! Espero que tenha dormido bem. Não se esqueça de que estarei de volta na quinta que vem de tardezinha, mas se eu demorar a chegar põe o arroz pra esquentar e coloca o lixo lá fora que o caminhão vai passar antes do anoitecer. Beijos te amo aqui e em qualquer lugar do mundo.”.
    Pedro chegou em casa mais tarde do que planejara, era quarta feira e ele perdeu o jogo do Santos x Portuguesa, não era um jogo muito importante, mas ele queria ver como seu time se sairia com a sua mais nova contratação. Nesse momento nada disso importava. Ele estava sozinho e não tinha ninguém pra lhe fazer um cafuné depois do jantar, por falar em jantar, isso também não lhe importava mais. O telefone não parava de tocar, sem duvidas eram familiares querendo dizer que sentiam muito e que estavam ali para o que precisasse. Ele não atendeu nenhuma das ligações. Permanecia sentado no chão em frente à TV, descalço e com o bilhete nas mãos assistindo ao canal fora do ar. Parecia uma estatua, não chorava, não piscava, não amaldiçoava a Deus, e parecia não respirar.
     Nem o senhorzinho que assoviava um bolero no apartamento ao lado nem a vizinha da frente, Dona Jasmira que fazia os melhores pães de queijo do planeta – como costumava dizer a dona do bilhete, não sabiam que o rapaz bonito do numero 26 acabara de perder a esposa. Helena era uma moça jovem e sorridente, adorava coisas alaranjadas e tinha os cabelos da mesma cor enfeitados por uma presilha de flor. Ela adora Elvis e consequentemente fazia com que todos os seus vizinhos começassem a gostar desse ritmo empolgante da década de 60. O casal mais parecia melhores amigos do colegial, ninguém nunca os ouviu brigar, estavam sempre juntos e com aquele ar de cumplicidade. Agora Pedro não tinha mais cúmplice, nem álibi, estava só, como sempre temera estar.
     Pedro reparava na xícara de café borrada pelo batom rosa bordô que ela na pressa de chegar ao aeroporto esquecera-se de colocar na pia. Ela sempre quis viajar para Amsterdam e recebera uma ótima oportunidade devido ao seu trabalho. Pedro não poderia acompanha-la, mas topou espera-la em casa, afinal eram apenas nove dias e pelo menos não era tão distante quanto o Japão. Ela estava tão animada que quem estivesse perto dela era contagiada pela mesma emoção. Pelo menos umas 12 pessoas começaram a sonhar em conhecer Amsterdam também. Ele estava feliz por ela, feliz de verdade, mas algo o fazia sentir medo, ele temia tudo que pudesse tirar Helena do seu lado, mas não queria estragar a felicidade dela com bobagens.
     Na noite anterior, eles conversaram sobre a viagem:
- Mas você não vai demorar, né?
- Claro que não querido, são apenas nove dias. Vai passar rapinho, você vai ver!
- E se você achar que lá é o seu lugar?
- Meu bem, meu lugar é aonde você pisa.
 Beijou-lhe o rosto.
 Não importava o que ela dizia nada parecia desatar o nó que apertava na garganta de Pedro. Ele ficou quieto.
- Ei seu bobo, eu prometo que volto e não me demoro. E ai de você se não me esperar com um abraço bem apertado...
- Ai de mim se você não voltar!
 Ele falou para dentro, mas ela pode ouvir e dando-lhe mais um beijo disse:
- Ai de nós.
     Ai deles, ela não voltou. Na verdade ela nem chegou ao aeroporto. Talvez se ela não tivesse com tanta pressa, talvez se ela tivesse terminado de tomar seu café, talvez se o outro motorista não estivesse bêbado ela estaria a caminho da cidade dos seus sonhos pensando no homem da sua vida que já estava contando os minutos pra guardar no baú de seus braços o seu maior tesouro.
     Nessa altura Helena estaria lhe enviando um sms com algum trecho das musicas do Elvis e o faria ter vontade de ligar o som e tirar o pó dos moveis. Mas não, agora ela estava numa mesa gelada, com pessoas desconhecidas descobrindo seu corpo e fazendo anotações. Mas Pedro acreditava que ela em fim encontrara a Amsterdam que sempre sonhou, mas lá nunca seria o seu lugar, Pedro não poderia pisar lá, não ainda.
      Mas a vida continua, não é verdade? Fácil pra quem diz! Pedro ainda tinha coisas do que fazer, sonhos pra realizar e sabia muito bem disso, mas sem ela... Aah! Sem ela nada faria mais sentido! O café o perderia o gosto, a vitória dos Santos não teria tanta gloria, a vassoura perderia a função de microfone/ guitarra e o prendedor em forma de flor nunca mais sentiria a macies dos cabelos ruivos dela. Nada mais seria como antes, principalmente Pedro. Mas ainda tinha algo que ele teria que fazer: colocar o arroz pra esquentar.
     Take me to your heart. For it's there that i belong, and we'll never part. ♪♫
- Caliane Melo.
    

domingo, 2 de dezembro de 2012

A vida em conserva




sábado, 3 de novembro de 2012

Não se morre de amor



     Era novembro, a primavera se encarregava de colorir e perfumar a paisagem, na rua as crianças brincavam e gargalhavam como se a vida fosse apenas aquele instante. O Sol já recolhia as suas ferramentas e se preparava para o espetáculo que ele estava prestes a protagonizar, sem falta e com a mesma beleza memorável de todos os fins de tarde. Ana, sentada ao pé da cama com um álbum de fotos no colo, se via distraída olhando para o brilho dourado que apontava no horizonte sem ao menos perceber que o mestre das manhãs subia ao palco. Seus olhos amendoados o fitavam profundamente, mas seus pensamentos estavam muito além do que os seus olhos ou de qualquer um, pudessem enxergar. Ela estava perdida na melancolia e na nostalgia que as fotos do álbum repousado na saia de algodão lhe traziam. As lembranças fizeram com que uma lagrima doce brotasse e deslizasse no lado esquerdo da face, se dependurando no queixo fino da moça.
     Essa lagrima era apenas um pequeno detalhe se comparado ao mar de outras dela que afogavam o coração de Ana. Ali no meio daquelas fotos estava o motivo de toda a inundação de sua alma. O motivo tinha nome. Jorge. O grande amor de sua vida. No radio começava a tocar Whataya want from me e Ana a incorporava como trilha sonora do filme que se rodava em sua cabeça.  O que se passava naquele cinema fantasma era o que qualquer pessoa que conhecia ou que fora figurante da historia dos dois sabia. A vida de Ana se resumia em antes, durante e depois de Jorge.
     Saber disso era o que mais torturava a moça. Lembranças podem se tornar a pior inimiga de uma pessoa e agora cada uma que viesse assombrar a alma da garota, surtia o efeito de um tiro a queima roupa e o pior de tudo era que nenhuma das balas seria capaz de mata-la, ela teria que se acostumar com as dores e com as sequelas até o dia em que não houvesse lugar do corpo a ser atingido. E ao contrario do que se dizem por aí, não se morre de amor, se morre com a falta dele.
     A cada lembrança, um tiro e a cada tiro uma sentença. Antes de Jorge, Ana era rio calmo, assim que o conheceu se transformou em mar agitado e agora era nada menos que uma pocinha d’água que estremecia a qualquer pedrinha lançada sobre ela. Nada desse mundo podia animar a vida de Ana, nenhuma pessoa, nenhuma felicidade, nenhum susto acelerava o seu coração, agora era tudo constante e isso a perturbava. Antes ela era completa, ele chegou e a fez transbordar, hoje era tudo muito escasso, sua existência dependia das migalhas que ela encontrava dentro de si. Ninguém jamais foi capaz de cavar um poço pra ver se brotava alguma coisa, o solo era muito seco e quebradiço para que isso fosse possível. Antes ela era pintura de rua, ele a transformou em quadro raro e agora não passava de papel borrado que nem mesmo Van Gogh ou Picasso conseguiriam transformar em arte abstrata. Em fim, ela era boa, com ele era a melhor e agora era como todos os outros.
     Ela sabia muito bem que poderia ter evitado esse fim. Ora pois, Jorge a amava mais do que viera amar qualquer outra mulher, mas Ana não deu o devido valor. Ela o amava, mas achava que apenas o amor dele bastaria, tinha plena convicção que o amor de Jorge seria suficiente pelos dois, que ele os carregariam por toda a vida e que o amor que ela tinha, e que ainda tem, seria apenas para casos de emergências. Mas não foi, Jorge não suportou a carga de amar por dois e pegou o que ainda restava dele e foi embora. Ana não fez nada para impedir, apostou todas as fichas que ele voltaria disposto a continuar a carrega-los pra onde quer que fossem. Mas ele não voltou. Hoje ela se arrepende de ter sido fraca e egoísta. Tudo teria sido tão diferente se ela tivesse segurado aquele que era o seu mundo com as duas mãos e mantivesse abraçado junto ao peito ao invés de te-lo pendurado em um fio de seu cabelo. Só ela sabe como doeu ver a coisa mais preciosa deste e de todos os outros mundos saindo pela porta da frente.
      O filme acaba. Ana guarda o álbum de fotos, a musica que toca agora é Never told you, ela calça as meias e caminha até a janela para comtemplar o próximo espetáculo do céu. A Lua pintava na escuridão parecendo cantar a mesma musica que toca no radio, as estrelas choram as dores de Ana. Esta não chora mais, na verdade tem um sorriso neutro nos lábios imaginando que nesse exato momento Jorge estaria mudando a vida de alguém e esse alguém saberia somar e multiplicar os amores. Ana cantarola o refrão da musica tocada no rádio e interpretada pela Lua e vê que as estrelas cessão o choro e sorriem junto com ela. O espetáculo segue até a hora em que o Sol acorda para mais um dia de trabalho.
- Caliane Melo.

sábado, 20 de outubro de 2012


sábado, 13 de outubro de 2012

O que eu tenho de torta eu tenho de feliz



     Se tem uma coisa que eu aprendi, foi que não se pode jamais deixar que o tempo mate a nossa alma de criança. Tudo bem que a vida de “gente grande” é cheia de regras, obrigações e correrias, mas se quisermos mesmo ser felizes temos que achar sempre um tempinho para brincar com a nossa criança interior. Quem disse que é feio se lambuzar comendo melancia? Quem disse que rapar o potinho de Danoninho com o dedo fere as normas de etiqueta? Quem disse que deitar no colo da mãe e tomar leite com achocolatado antes de dormir faz mal a saúde? Quem disse que é proibido dançar de meias pela casa? Quem disse que acordar às 10:00 horas da manhã para assistir desenho é perca de tempo? Pois se alguém disse qualquer uma dessas barbaridades, esse alguém nunca foi feliz e tem medo que um dia chegue a ser. Mas ignore, porque não só se sujar faz bem, mas viver e se deixar ser feliz faz um bem danado!
- Caliane Melo

sábado, 29 de setembro de 2012

O guarda chuva não abre.



     Quando é que essa chuva vai passar? Tô precisando de sol aqui dentro. Precisando que o tempo fique aberto para pôr minha alma pra secar no varal. Parece que quanto mais eu torço, mais encharcada ela fica. A tempestade foi tão forte, tão violenta, que destelhou a minha mente e alagou o meu coração. Preciso que o céu fique limpo e azul e que o sol apareça outra vez para que eu possa abrir as minhas janelas, deixar o vento entrar e tirar esse cheiro de mofo. Está tão frio, tão molhado, tão escuro nessa minha alma, que passarinho nenhum ousa vir cantar na minha varanda. Isso torna tudo ainda mais triste. 

     Onde está o meu sol reluzente, o meu arco íris que sempre me disseram que vem logo após da tempestade? Talvez deste lado não haja leste suficiente para o nascer do sol ou quem saiba ele também tenha mudado os seus costumes. 

- Caliane Melo.

sábado, 25 de agosto de 2012

Permita-me fazer planos

    
      Nota da autora: "Eu sei que nós nos prometemos não fazer planos, mas é impossível não te incluir nos meus sonhos já que você é fundamental para que eles existam. Mas se mesmo assim você não permitir que eu os façam, peço então que pare de ler esse texto ou se a curiosidade falar mais alto imagine então que nós não somos os personagens principais deste escrito.
     Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência."

     Que mesmo daqui a dez, vinte, cinquenta anos, a gente sinta a mesma paixão e zelo que temos hoje um pelo outro. Que a gente jamais deixe de fazer loucuras, brincar de andar de olhos fechados  e cantar na rua feito loucos. Que  tenhamos tempo para perder tempo com nós dois, que não falte disposição para encerrar nossas noites dançando na sala ao som dos grilos lá fora enquanto arrumamos a bagunça da casa acumulada durante a semana. Que os nossos dias pareçam eternos finais de semana, ouvindo Fala Mansa e bandas que ninguém nunca ouviu falar e acho bom que a gente tenha o juízo de reservar nossos domingos para dormir até tarde e discutir a filosofia de Deus e o mundo tomando sorvete na pracinha da cidade.
     Que a gente pegue engarrafamento dos mais longos só pra que eu possa deitar a cabeça no teu ombro e mexer na sua sobrancelha e que a gente brinque de brigar pelas coisas mais bobas possíveis, fazendo drama de novela mexicana até perder o sentido da coisa. Que de vez em quando a gente "sem querer querendo" se perca numa biblioteca ou numa livraria para criticar os títulos e rir das fotos cheias de poses dos autores na capa de trás dos livros. Que você tenha paciência de repedir uma piada por mais mil vezes ou explicar como calcular a velocidade media de um veiculo. E que eu te perdoe por não reparar que eu aparei as pontas do cabelo ou que comprei meias novas e que além de tudo eu aprenda a respeitar o teu silencio ensurdecedor.
     Que eu possa beijar o seu sorriso e morder o seu ombro pelo resto da vida. Que fique claro que eu deixo você bagunçar o meu cabelo, amassar a minha roupa, borrar o meu batom (menos o meu rímel), só não deixe que eu permaneça sem nenhum vestígio seu. Que a gente sempre tenha o desejo de cuidar um do outro, que a gente brinque de contar as nossas rugas e que eu tenha a enorme felicidade de ter duas miniaturas sua com o seu sorriso correndo e espalhando brinquedos pela casa. Em fim, que você não desista de nós e que não nos esqueçamos de conquistar o outro diariamente e que nos permitamos nos apaixonar quantas vezes forem preciso, como se fosse a primeira vez.

- Caliane Melo.

sábado, 11 de agosto de 2012

Apenas um lembrete de geladeira.

        
 "Oh meu amor, quero que se cuide bem. Peço-lhe que não se esqueça de nós e que continue a guardar em ti um lugar para mim. Não deixes de escutar os grilos da sua cabeça, eles sabem muito. Não se deixe engolir sapos, eles têm um gosto demasiadamente amargo e não fazem bem a saúde. Aprenda a conviver bem e quem sabe até apreciar o bater das asas das benditas borboletas que cochilam em seu estômago. E o ultimo e mais importante dos pedidos, por favor querido, liberte os passarinhos das gaiolas do seu coração, aqueles azuis, de olhinhos pequenos e canto suave que eu te trouxe da ultima viagem á minha alma. E me espere, para que possamos juntos, aprender a voar com eles." 

- Caliane Melo.

sábado, 21 de julho de 2012


     José Araújo de Alcântara, quarenta e três anos,  filho de um carteiro e de uma professora de gramatica, acordava como de costume ás 04:35 da manhã para tomar banho, calçar os sapatos de couro velho, tomar uma xícara de chá de camomila e descer as pressas os 73 degraus da escada do prédio antigo em que morava, para pegar o primeiro ônibus que o levaria até a metade do caminho ao Cartório Municipal onde trabalhava á seis anos, onze meses e dezoito dias. Emprego do qual pensava em continuar até o dia em que se aposentaria.
     Era conhecido por todos como Zé Tesoura. Esse apelido se deu quando Zé ainda era um menino devido a sua habilidade de cortar as pipas dos outros meninos que enfeitavam o céu ensolarado na época das férias escolares. O apelido continuou o mesmo, mas o significado mudou bastante, agora ele era conhecido assim como “Tesoura”, porque não dava intimidade a ninguém, “cortava” de imediato quem se atrevesse a vir-lhe com brincadeirinhas de qualquer tipo.
     Zé Tesoura era um homem sério, centrado, discreto e resguardado, muito diferente do pequeno Zezinho Tesoura de trinta e tantos anos atrás. Zezinho era um menino brincalhão, espalhafatoso, muito disposto e sonhador. Era como qualquer garoto da sua idade. Soltava pipa o dia inteiro, corria entre a multidão de garotos no meio da poeira atrás dos carros que passavam pela rua de terra batida e enlouquecia quando um avião sobrevoava por cima das casas. Ele era sempre o primeiro a correr para ver o espetáculo no ar e ficar gritando e dando tchau até o grande pássaro de ferro sumir por entre as nuvens. Tinha a tampa do dedão esfolado de tanto jogar bola descalço no campinho de futebol do quarteirão. Nos dias de muito calor, se jogava na enorme bacia de roupa da mãe e fingia estar em pleno oceano Atlântico, junto do seu barquinho de papel engrossava a voz e gritava “Marinhos, preparem-se, um navio pirata se aproxima”, “Preparar ganhões, apontar, fogo!”,” Bum! Bum! Buum!”. E nos dias frios juntava-se a toda a molecada da rua e iam procurar qualquer pedaço de madeira que estivesse dando sopa por aí, para poderem acender a maior fogueira de todas e ficavam lá contando historias até que as mães começassem a aparecer nas portas chamando-os para o jantar.
     É claro que com a vida corrida e difícil que Zé Tesoura levava, não havia tempo para lembrar-se daquele tempo bom, nem mesmo em nenhuma nas quatro viagens de ônibus que era preciso para ir e voltar do trabalho. Quando chegava em casa tomava um banho rápido e silencioso- ninguém nunca ouvira Zé cantar, nem mesmo assoviar debaixo do chuveiro- e logo depois de uma xícara de café bem forte, Tesoura caía na cama bem esticada e gelada do seu quarto escuro. Apesar do seu temperamento frio e distante, Zé Tesoura era uma boa pessoa, extremamente honesto, – nunca roubou se quer uma balinha de menta da vendinha do Seu Juca- nunca fizera mal pra ninguém, exceto para ele mesmo.
     Se Tesoura tivesse tempo para relembrar o seu tempo de menino, certamente o faria com lamentações e arrependimentos. Mas será que ele se decepcionaria por não ter seguido o seu sonho de ser bombeiro? Lamentaria não ter tido e nem buscado a oportunidade de visitar Júpiter? Se arrependeria por não ter se casado com Cidinha, a garota mais lindinha de toda a escola que fora o seu primeiro amor? Choraria por não ter conquistado um troféu no torneiro de jogos infantis? Provavelmente não. Zé acharia tudo aquilo que antes chamava de sonho, uma perca de tempo. Não teria nem o trabalho de olhar em volta e ver a vidinha medíocre que tinha. Era funcionário de um Cartório, nunca viajou além da cidade mais próxima, foi casado com uma corretora de imóveis que usava terninho azul marinho, fumava três maços por dia e que a única coisa que fazia durante o dia era assistir programas de fofocas e acariciar o gato gordo que herdou da tia avó. Zé não tinha troféus, medalhas e nem cartas de amor guardadas. Tinha uma vida cinza e seu corpo permanecia sempre em temperatura ambiente. Sempre.
     Ninguém sabe explicar como Zé Tesoura foi se tornar uma pessoa tão avessa do que costumava ser. Talvez, conforme ele crescera e seu corpo se esticara, o seu coração fora se diminuindo, esmagando entre suas paredes aquele menino alegre e vivido que existia, para dar espaço ás suas novas dimensões. A vida seguia da mesma maneira de sempre, até que, quando Zé completou sete anos de trabalho no Cartório, foi gratificado com um aumento salarial e pode em fim comprar o tão desejado fusca azul. Por alguns segundos, quem estava por perto pode ver Tesoura um tanto entusiasmado e era possível até perceber um ligeiro brilho nos olhos de Zé ao receber as chaves do carro.
     O verdadeiro milagre aconteceu no caminho de casa, quando Zé passou com o seu carro, por um grupo de crianças e essas, como se buscassem por um sonho, puseram-se á correr atrás do seu carro cor de céu. Elas pulavam, gritavam, esticavam as pequenas mãos sujas de terra, enquanto a poeira as tornava simples fantasmas. E nesse exato momento, Zé Tesoura sentira um arrepio bom, que percorria todo o corpo e sua temperatura oscilava de 34°C á 38°C e pelo retrovisor podia-se ver os olhos do homem de aço sorrirem. Pela primeira vez em muitos anos Zé Tesoura sentia a felicidade tomando conta da sua alma. E agora sabemos que o coração dele poderia ter se reduzido a mera bolinha de gude, mas ele ainda existia, assim como o pequeno Zezinho Tesoura, e saltitava como se acabasse de passar por sua cabeça, o maravilhoso pássaro de ferro.

- Caliane Melo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Que a felicidade vire rotina!

     
     Talvez a felicidade não seja um enigma indecifravél, vai ver que é a gente quem se preocupa de mais com os detalhes e esquece que as respostas podem estar aonde menos esperamos. Talvez a felicidade não tenha uma receita infalível, talvez as formulas para alcança-la são tão variáveis que seria impossível para até mesmo para os gênios da matemática elabora-la sobre um papel. Talvez a felicidade não esteja tão longe, quem sabe ela esteja bem do nosso lado, ao alcance de nossos olhos e de nossas mãos, só precisamos olhar ao nosso redor. Talvez a felicidade não venha acompanhada de grandes tesouros, grandes poderes, grandes amores. Às vezes ela vem no mesmo pacote do dia a dia, concentrado nas pequenas coisas, nas mais singelas virtudes, nos mais inocentes dos amores. Mas e se a felicidade é tão simples assim, então como se faz para ser feliz? Ora, talvez a felicidade venha sem aviso prévio ou sem alarmes, talvez você é feliz e nem sabe. A felicidade não é igual a que é vendida na televisão ou comprada em livros de contos de fadas. Talvez a felicidade esteja nas melhores coisas guardadas e escondidas dentro de nós. Talvez a felicidade se manifeste num abraço apertado, num dia ensolarado ou numa piada sem graça. Quem sabe a felicidade não seja só um estado de espirito? Ou que talvez ela seja a recompensa recebida em milhares de parcelas? Porque afinal, é pra tentar ser feliz que a gente vive.
- Caliane Melo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

domingo, 27 de maio de 2012

Não sei falar de amor


     Engraçado como certas coisas têm o poder de mudar a nossa vida, quebrar os nossos preconceitos, renovar os nossos pensamentos e no caso do Amor- como todos aqueles que já experimentaram desse sabor agridoce sabem- até os mundos mais inatingíveis são postos de cabeça para baixo. E eu pergunto á vocês, meus caros leitores, que mal há em viver plantando bananeira? Mas se você amigo leitor, já desfrutou desse sabor agridoce ou se ainda o guarda na ponta da língua, haverá de concordar com o que venho propor nesse texto e talvez com o que faltarei a escrever.
     Sei que enrolei muito no primeiro paragrafo, provavelmente voltarei á faze-lo, mas o que quero lhes dizer é que o amor não tem absolutamente nada a ver com os contos de fadas e muito menos com os filmes da Sessão da tarde, mas isso não quer dizer que você deva perder as esperanças e desacreditar que possa ser uma experiência magica, não. A sua historia de amor só não vai depender de personagens da realeza, fadas madrinhas ou esbarrões no corredor da escola. A magia já vai estar no próprio sentir. Pois então deixemos de comparações e vamos aos exemplos!
     Quando se ama, você entende perfeitamente o que é desejar a felicidade do outro e vá por mim, você penhoraria a sua própria vida no antiquário de Deus só para garantir que aquela pessoa seja eternamente feliz mesmo que você não esteja lá para compartilhar as alegrias. O amor vai te fazer querer ter e criar apelidinhos melosos, justamente àqueles que um dia você tanto criticou e vai ver que não importa o quanto a grama do vizinho seja mais verde e macia, pois o seu jardim terá sombra fresquinha e as flores mais lindas e perfumadas de toda a vizinhança. Você vai saber o que é sentir saudades de alguém que ainda nem se ausentou. No abraço desse alguém irá ter certeza que ali é o lugar perfeito para se viver e enquanto estiver dentro dele vai sentir-se capaz de enfrentar terremotos e tsunamis sem medo de desabar ou ser levado pela correnteza. E o mais importante, do lado dessa pessoa você vai encontrar as respostas para todas as suas perguntas e vai entender porque não deu certo das outras vezes, aliás, quando estiver com ele ou com ela, irá esquecer que todos os outros um dia sequer existiram.
     Antes de ir embora, eu lhes dou um ultimo concelho: livre-se de todos esses livros com regrinhas sobre o amor, esqueça todas as instruções que já lhe deram, inclusive esta, porque você não precisa entender o amor e nem aprender como resolve as suas equações, você só tem que deixar que ele te encontre, permitir que ele se aproxime e te faça plantar bananeiras pelo resto de sua vida.

- Caliane Melo.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O criador de sonhos

 

     Ele era o tipo de caso que a ciência jamais conseguiu explicar, o tipo de mistério que gerações futuras tentarão, sem sucesso, desvendar. Era o inexplicável em pessoa, conhecido por todos como louco ou como a experiência mal sucessedida de Deus. O que não era de se estranhar, pois o que o sábio, o ser racional, a criatura mais perfeita de todas não consegue explicar é logo carimbada com o selo da loucura ou jogada nos ombros do Deus que não sabe o que faz.
     Esse tal de louco teve uma infância normal como a de todos os outros garotos. Frequentou a escola até os 17 anos, tentou entrar para o time de futebol do colégio, mas não conseguiu, porque não entendia sobre impedimento e driblar os outros jogadores sem ser derrubado no chão era uma tarefa impossível para ele. Nunca quis ser popular, tirava notas medianas e nunca recebeu um correio elegante de alguém. Depois de terminar os estudos, se alistou nas forças armadas, mas foi dispensado por conta de uma pequena lesão na clavícula deslocada aos 12 anos depois de cair da arvore de laranjeira da casa da avó. Até aí nada de extraordinário. As coisas mudaram quando ele decidiu rasgar o script e abandonar a mascara de “sou um garoto igual aos outros” que lhe foi colocada no dia em que nasceu e resolveu mostrar ao mundo o que guardava na alma.
     Desde criança ele soube que era diferente de tudo que este mundo já viera a ver, e gostava de ser assim. Ele discutia com a Chuva, namorava a Lua enquanto ela o fazia dormir, desafiava o Mar e toda a sua força, ensinava os Pássaros a cantar, contava piadas ao Sol e jurava que o fazia morrer de rir até se pôr, sussurrava poesia aos ouvidos do Vento, desenhava rostos nas nuvens e cantava suas historias nunca vividas às estrelas.
     Não havia uma só pessoa que passava sem ser lida por aqueles olhos ensolarados. Ele era temido por seus próprios medos e abraçado pela sua solidão, mergulhava sem pudor no lago da saudade de lembranças que nunca tivera e voltava com a alma refrescada como quem tivesse acabado de visitar o inferno. Ele não tinha planos para o futuro, não esperava a noite chegar para poder sonhar, passava o dia inteiro criando e recriando os seus próprios sonhos e os realizava quando bem entendia.
     Depois de sair contando a quem quisesse ouvir, que havia conhecido os anjos pessoalmente e que estes vieram pedir que lhes emprestasse suas asas, se tornou motivo de riso e depredações em toda a cidade. Aonde ele passava carregando os seus sonhos nas mãos e nos olhos, o brilho de ter conhecido anjos de perto, o pobre garoto era visto com olhares tortos e recebido com indagações do tipo “Pobre garoto, tão jovem e tão louco”,” É mesmo uma pena! Tinha todo um futuro pela frente...” e um grupo de desalmados gritava em coro” Lá se vai o louco, sem nada na cabeça, para lugar nenhum!”. Mas ele não ligava, na verdade ele nem ao menos os conseguia escutar.
     As pessoas o chamavam de louco e ele apenas sorria, pois sabia que loucos eram todos os outros. Eu, diferente de todas aquelas pessoas, não o julgava dessa maneira. Eu o conhecia como ninguém, eu o entendia, pois um dia, fiz parte de um de seus sonhos. Pois eu fui a sua maior loucura cometida. Assim o observava de longe enquanto este andava sem tirar os olhos das mãos, sussurrando á mim mesma “Lá se vai o sonhador, com o universo na cabeça, seguindo o caminho dos céus, que é pra onde tem que ir”.

 - Caliane Melo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Seja do jeito que for e se for, me leva.

                                                           Dezessete de janeiro de 1896.   

      Juro que não queria que fosse embora, meu amor. Que fostes embora do meu colo, que foste pra longe de mim, pra longe de nós. Leve-me contigo! Eu não sou tão trabalhosa quanto dizem por aí, não ocupo muito espaço e não custo quase nada. Na verdade eu saio bem em conta. Poderia ir toda a viagem em silencio no meu cantinho que poderia ser dentro de uma caixinha de fosforo, entre as suas camisas na mala ou no seu abraço. E se me permites dizer, no seu abraço seria o lugar perfeito. Leve-me e eu te ajudarei a realizar os teus sonhos que o levam a ir embora daqui e ficarei feliz com isso, já que não abriria mão dos meus, pois todos estes se resumem em ti. E mesmo que ainda assim, queiras ir só, nada tenho a fazer, a não ser te pedir que volte logo, um logo bem curto e que quando voltares não se vá outra vez, se possível querido, volte e fique para sempre. Ora pois, eu ainda acredito que o “para sempre” ainda existe, e se a caso não existir, nós o reinventaremos.
     Não pedirei que prometas voltar. Quero que voltes por querer, por amar. Não deixes que eu me acostume com a tua ausência. Não me faças viver sem os teus olhos sobre os meus, teu abraço no meu abraço. Não deixes que eu apenas exista, volte para sermos vida juntos.
      Lembre-se meu bem, “eu” é só um pronome, “você” é apenas uma palavra, mas “nós” é poesia, a mais linda e a mais completa de todas.
      Um beijo de sua Dama de Copas. 

      - Caliane Melo.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sobre o tempo e seus contratempos


     Não costumo desacreditar quando alguém diz não “ter tempo” para certa coisa, porque na verdade é isso mesmo. Nós não temos tempo, ele é quem nos tem. Mas isso não quer dizer que essa seja uma relação egoísta, absolutista. Ele nos tem, mas não nos possui, é só que nós, meros mortais, não exercemos poder algum sobre ele.
     Desde que me entendo por gente, ouço falar que o tempo tem o poder de transformar tudo que toca, que ele é o melhor remédio para aquilo que parece ser incurável. Mas não, o tempo não apaga lembranças, não cura a dor de amores mal resolvidos, não fecha as cicatrizes do coração e nem cura as dores da alma. Ele não tem permissão de adentrar o interior de cada um e mover as coisas do lugar. Esse, definitivamente, não é o trabalho dele. O dever dele é transformar o que está do lado de fora. Assim como a ventania leva as folhas secas do chão para outra direção ou como as ondas do mar apagam qualquer vestígio na areia,o  tempo varre o que está solto por aí e leva junto dele aquilo que não nos pertence. Ele não faz nada além de passar. E como já dizia Mario Quintana, “O tempo é um ponto de vista dos relógios”.
     Ás vezes ele vem como brisa leve que mal conseguimos sentir e outras de vento forte, que sentimos a quilômetros de distancia e que por muitas vezes tememos, achando que depois dessa passagem não restará nada. Mas e se quebrássemos todos os relógios? E se sumíssemos com todos os calendários? E se colocássemos mais um punhado de areia na Ampulheta? E se... Não meu caro, nada disso adiantaria, ele continuaria a passar. Sem demora, sem atrasos. Pois então, aproveite os momentos, porque o tempo não para e a vida não espera por ninguém.
     Imagino o tempo como um senhorzinho calvo, óculos apoiados no nariz, calça com suspensório e chinelos de dedo, sentando no banco de uma praça deserta, como se estivesse esperando alguém, esperando alguém que parece não querer chegar.E lhes digo mais, tenho uma leve suspeita de que o Tempo e a Vida são melhores amigos e que como tal, tem lá os seus acordos e promessas. Acho até que os dois fizeram um pacto de nunca partirem um sem o outro, que esperassem a hora de cada um para que possam seguir a próxima etapa juntos. Como dois irmãos.
     Cada pessoa recebe uma determinada quantidade de areia, determinadas voltas de ponteiro, nem menos nem mais do que seja necessário para se cumprir o que há de ser cumprido. Por isso, não importa se o seu tempo passou voando ou se passou em gotas, o que realmente importa é o que foi feito dele. E quando é chegada a hora da ultima badalada do relógio, lá está o tempo se levantando bem devagar colocando o pequeno relógio de ouro dentro do bolso, pondo o chapéu na cabeça, olhando ansiosamente em direção daquela que vem em passos mansos, de vestido solto, descalça e com lenço amarrado no pescoço, pronta para partir de mãos dadas com o seu fiel companheiro e a gente nem percebe que agora a Dona Vida e o Senhor Tempo caminham juntos para um lugar desconhecido, onde os relógios são apenas quadros decorando as paredes e o “tic tac” é musica para os ouvidos dos cansados.

-Caliane Melo.

sábado, 21 de abril de 2012

O meu dengo é a tua manha

     
     Quando se fala em passado eu logo lembro da primeira vez que te vi, era o nosso primeiro dia de aula do 3° ano. Você chegou atrasado abrindo a porta devagarinho pra ninguém perceber, mas eu percebi e torci para que se sentasse do meu lado, mas você foi logo se ajeitando perto daquela garota bonita e esnobe de batom cor de chiclete grudado no asfalto quente. Até hoje odeio aquela cor de batom.
     Quando se fala em felicidade, eu imagino você dobrando a esquina andando em minha direção e pedindo desculpas pelo atraso, fazendo eu esboçar um sorriso de saudade e alivio em ver que você não foi atropelado por um caminhão da Coca-Cola enquanto atravessava a rua como a minha mente maluca havia imaginado. Quando se fala em presente, eu me vejo bem aqui, sentada no chão do meu quarto escrevendo qualquer coisa pra alimentar a sua presença e sustentar esse sentimento, que não deveria existir, mas é mais verdadeiro e concreto que qualquer coisa desse mundo. Quando se fala em futuro, eu fecho os meus olhos e nos vejo na cozinha da nossa casa, preparando macarrão com queijo para o jantar. Eu vejo uma pilha de louças sujas na pia,  a luz da lua escapando pela fresta da janela e refletindo na tampa da panela, você com uma mancha de molho de tomate na camisa, rindo da minha cara por eu ter deixado o arroz queimar. 
     Quando, mesmo que por acaso, mesmo que de longe, eu escuto a palavra “amor”, flashes disparam a sua imagem na minha mente e de vez em vez o vento vem lá de fora sussurrar o teu nome no meu ouvido. Porque na verdade tudo se resume á você, todos os filmes que eu assisto, todas as musicas que eu ouço, toda frasezinha de amor que eu leio lembra você. Parece que uma força desconhecida insiste em te colocar em tudo o que eu vejo e toco. Tudo começa e termina em você, sempre. Não importa o que eu esteja pensando, o que eu diga ou o que eu deseje, tudo vai sempre pertencer a você. Vai muito além da minha vontade de te querer, te ter sempre por perto, é como se não dependesse mais de mim, sem querer querendo acaba existindo mais de você em mim do que eu mesma. E talvez seja isso que faz com que eu não queira parar nunca, que eu  vá dormir e acorde por você. Porque só existe vida se você estiver aqui, só existe vida se você fizer parte dela.

- Caliane Melo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A velha história de sempre

                                                                        Ilustração de Raizza Godoi
   
      Hoje me bateu uma saudade da nossa história. Aquela que só eu  li e fiz questão de reler centenas de vezes. Você nem deve saber do que eu estou falando, afinal, nunca se deu ao trabalho de ler se quer o primeiro capítulo. Nem notou que ele era de capa dura, com vários rabiscos na última página, inclusive com as nossas iniciais uma do lado da outra, se abraçando e que tinha como marca página uma folha de cerejeira que coloquei numa tentativa de florescer o sentimento que a tempos não saboreava o doce sabor da primavera. Falta-me coragem de pegá-lo debaixo da minha cama, tirar a poeira e folhear cada página só para sentir o cheirinho delicado da folha de cerejeira. Qualquer dia desses vou me arriscar a ler-lo pela última vez, já que não lembro quase nada sobre aquela história, do qual fomos personagens principais. A única coisa que ainda tenho memória é que no final não houve um “ E viveram felizes para sempre”. Afinal, nem toda história precisa terminar do mesmo jeito, não é?

- Caliane Melo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O segredo é fechar os olhos e soprar os sonhos aos céus.


Se puderes ler meus sonhos, sem que eu te fale, poderás ouvi-los se assim quiseres. Busca os sinais, ouve as estrelas, como um caçador seguindo sua presa. Escuta o vento que sopra do deserto, levando a mensagem de amor que a ti deixei.

segunda-feira, 26 de março de 2012

"Vende-se, troca-se, doa-se um coração! Tratar aqui."

    
     E esse meu coração hein? Não tem como trocar? Tem certeza que não veio com nota fiscal? Eu posso dizer que veio com defeito de fábrica e exigir um novinho em folha pra colocar no lugar desse aqui que já está bem surrado, não posso? Ó, escuta só o barulho de oco! Consegue ouvir?
    Me desculpe pelo remendo mal feito, não sou muito boa nessa coisa de costurar. Tive que remendá-lo, pois  juntar e colocar os pedaços não adiantou muito, o vento gelado continuava a passar pelas brechas que nele havia. Vieram-me com uma história boba que o tempo iria colocar todos os pedaços no lugar. Rum! Eu esperei e esperei e nada disso aconteceu.
    Mas me diga, será que devo esperar um pouco mais ou devo colocar uma plaquinha de “vendo ou troco esse coração” antes que ele perca ainda mais o valor no mercado? Sei não hein! Continuar com ele nessa situação é bem perigoso, mais uma pancada e pronto, tudo vai pro beleléu! Melhor parar e ficar bem longe dessas coisas que envolvam sentimentos e aproveitar que o meu coração ainda consegue fazer o que de melhor ele sabe: bombear sangue para o resto do meu corpo.

- Caliane Melo.

sexta-feira, 16 de março de 2012


Outrora, uma mariposa apareceu. “Eu a engoli que nem vi”, assim a rima floresceu. Flor sorridente. As mariposas são um mistério. Elas têm medo do escuro, como sempre tive. Uma volta, volta e meia, vejo uma triste buscando a luz. A gente teme, mesmo sabendo que o escuro é mais bonito. As alegres são as coloridas, eu provei de uma bem triste e tão amarga, que me doeu o corpo todo. Sabendo, sem querer saber, provei do genérico das borboletas. E muitos engolem mariposa, pensando que têm borboleta no estômago.

                                                                ( Adriano C. em "O mar e o menino" )

terça-feira, 13 de março de 2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Almas perfumadas

    
     Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

     Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

     Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

     Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.
                                                                          
                                                                                                                                   ( Ana Jácomo )



segunda-feira, 5 de março de 2012

Eram dois estranhos que se conheciam muito bem


Ele não sabia qual era a banda favorita dela, mas sabia que a musica a trasportava para outro mundo. Ela não sabia que ele era fascinado por filmes de guerras, mas sabia que ele sempre quis ser um soladinho de chumbo. Ele não sabia que ela amava lírios, mas sabia que ela ainda tinha medo do escuro. Ela não sabia que ele tinha uma pintinha no dedinho do pé, mas sabia que aqueles olhos cor canela brilhavam mais que as estrelas refletidas no mar. Ele não sabia que ela calçava 37, mas sabia que ela conversava com a chuva. Ela não sabia que ele havia operado das amídalas a 4 anos atrás, mas sabia quando ele não estava bem só pelo tom abafado por suspiros da voz dele. Ele não sabia que ela sonhava em viajar para a Holanda, mas sabia que ela mordia o lado esquerdo inferior dos lábios quando estava nervosa. Ela não sabia que ele colecionava moedas, mas sabia que ele adorava andar descalço na grama molhada. Mas o que todos - os vizinhos, o senhor que vendinha churros, os passarinhos no telhado das casas mais altas, as estrelas do céu, todo o universo sabia e até os seres que viviam no subterrâneo do planeta- menos os dois sabiam, era que eles foram feitos um para o outro. E continuam, até hoje, sem saber.

- Caliane Melo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A garota que colhia abraços

     

     Em algum lugar de latitude e longitude desconhecidas e a incontáveis séculos, décadas, anos ou, quem sabe dias, havia uma garota –  não se sabe o nome de nenhum dos personagens dessa história  – que tinha uma mania um tanto estranha de abraçar e escutar os batimentos cardíacos das pessoas que lhe aparecia pela frente. Era assim desde pequenininha. Abraçava  e encostava o ouvido no peito de quem ela encontrava no caminho. A cada abraço, um suspiro.
      Todos daquela cidadezinha indigente eram acostumados com esse ritual. Uns abraçavam com má vontade e outros, a maioria, esperavam ansiosamente pela visita. Mas a garota guardava o seu melhor abraço especialmente ao garoto que morava na casa amarela que ficava em frente da sua. Ela nunca tivera a sorte de encontrá-lo durante as suas costumeiras visitas aos moradores da cidade. Eles sempre se viam de longe. Ela montada na sua bicicletinha roxa e ele jogando mini game na varanda. Na verdade, esse desencontro não era obra do destino, era ele quem se escondia e se recusava a abraçar aquela garota estranha. O que ninguém sabia, era que a tal garota tinha um coração mecânico, movido a batimentos cardíacos de todas aquelas pessoas e a repulsa do garoto era nada mais do que o velho amor recolhido.
    Os anos se passaram e tudo continuava como sempre. A garota, agora com 17 anos, não recolhia os seus abraços diários montada na sua bicicletinha roxa e o garoto da casa amarela não mais passava o dia inteiro jogando mini game na varanda. Agora os dois só se viam através das janelas de suas casas. Olhares curtos, sem sorrisos, sem acenos e é claro, sem abraços.
     Numa manhã de domingo a pequena cidadezinha sem nome é acordada da sua calmaria com o barulho da cirene de uma ambulância. A garota do coração de lata estava a caminho do hospital. Os batimentos que ela havia colhido durante toda a sua vida não eram mais suficientes. Ela precisava de algo mais forte. O garoto da casa amarela também não se sentia nada bem. Sua frequência cardíaca estavam diminuindo a todo tempo, quase parando. Até que alguém - não se sabe quem - , ligou as coisas e promoveu o encontro dos dois. Colocaram-os no mesmo quarto do hospital, aproximaram as macas e entrelaçaram as mãos dos dois jovens. O esperado aconteceu. O quadro clínico de ambos estava melhorando, mas ainda era critico, então, mais uma vez alguém – deveriam saber quem era o dono ou dona das ideias geniais - teve a ideia de suscitar o abraço dos dois. Juntaram-se as macas, puseram os braços em volta um do outro, ajeitando cuidadosamente a cabeça da garota no lado esquerdo do peito do rapaz. Foi como magica! Os dois foram se recuperando  numa rapidez assustadora. Daí por diante, os dois perceberam que eles se precisavam, se completavam. Ela precisava dele para manter seu coração mecânico a pleno vapor e ele precisava dela para que seu coração humano se mantesse em atividade.
         Nem precisa dizer como termina essa historia, não é? Eu não faço a mínima ideia se eles viveram felizes para sempre, nunca ouve registro disso em nenhum livro de historia. Mas eu posso dizer que eles viveram bem para repassar esse conto, até chegar aqui nesse lugar a 5°16’19” de latitude norte a 33°45’09” latitude sul e 34°45’54” de longitude leste a 73°59’32” de longitude oeste, no seculo XXI, no ano de 2012, embalados pelo “ Tum Tum” do coração do garoto da casa amarela e pelo “ Crec Crec “ do coração mecânico da garota que colhia abraços.


- Caliane Melo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O inventor de mim

     
     
      Antes eu era um pedaço de papel amarrotado, molhado, pisoteado, jogado no chão de uma rua qualquer dessa cidade, até que você me encontrou, me colocou no bolso e me levou pra casa. Você me desamaçou, me pôs pra secar, me dobrou diversas vezes e me fez origami, me fez Tsuru. E foi graças a sua astucia e dedicação que por muitas vezes eu me tornei céu, sol, lua, mundo. É isso, você me fez mundo. Daí eu aprendi que se pode ser o que quiser nessa vida se tivermos mãos salvadoras como as suas. De uma forma ou de outra nós sempre seremos usados por outras pessoas. Nem tem como evitar, é uma regra da vida. É impossível se escupir, se emoldurar sozinho, apenas com as suas próprias mãos, aí é ter sorte de cair em boas mãos, literalmente.
      Ainda me lembro da sua ultima invenção de mim. Estávamos sentados numa calçada qualquer, da mesma rua qualquer em que você me encontrou. E então, como aquele seu sorriso de quando uma ideia louca está por vir, você apontou pro céu e perguntou:
- Que acha de ser uma estrela?
- Não acho que isso possa ser possível.
- Mas quem foi que te disse uma mentira dessas? Fazemos um trato então: Eu serei céu e você minha estrela!
- Ah é? E se eu quiser ser uma estrela do mar?
- Ora, então eu serei o seu mar, serei até oceano se preferir.
- E se eu não quiser ser estrela?
- Aah, então eu terei de deixar de existir junto de você.
   E foi assim, com conversas de doido e ideias absurdas que eu me tornei estrela, sereia, chuva. Foi assim que eu me tornei tua.

- Caliane Melo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

" Pois agora lá fora, o mundo todo é uma ilha "

     Mas essa vida é uma caixinha de surpresas mesmo, hein! Quando criança, eu contava os dias para me tornar “gente grande” e ter liberdade e agora cá estou eu tentando de tudo, fonte dos desejos, gênio da lampada, porções magicas e até uma audiência com o Sr. Tempo, só para poder voltar aquele mundo onde a verdadeira liberdade residia. Agora as coisas, as pessoas e o mundo são tão diferentes. Ou talvez a única coisa que tenha mudado nessa historia foi eu.
     Quando a gente é criança, a felicidade parece ser tão nossa amiga, parece que ela vem junto com os chicletes em forma de tatuagem e quando ela se apaga é só comprar outro que fica tudo bem. Parece que o nosso mundo é sempre colorido, todo pintado com tinta a prova d’agua. Parece que todos os dias são ensolarado e tudo tem cheiro e sabor de Tutti Frutti – quer dizer, nem tudo, os remédios são amargos em qualquer mundo -. Mas agora, no degrau onde eu estou, a felicidade não passa de uma lenda, o mundo é todo em preto e branco e quando chove tudo fica borrado, os dias são sempre nublados e as pessoas andam sempre em linha reta, como robôs programados a seguir em frente sem desviar do caminho e sem direito a fazer perguntas.
     Crescer foi mais difícil que eu pensava. Mas por que será que dói tanto fazer essa transição de mundos? Acho que quando nós deixamos de ser crianças, perdemos todos os nossos super poderes, nossa varinha de condão e a nossa imaginação é reduzida a menos que a metade. Na verdade, eu acho que desde que nascemos até o dia em que passamos para a próxima fase da vida, as penas de nossas asas são arrancadas uma a uma, nos deixando incapazes de voar e com o passar dos anos os músculos dessas asas se atrofiam. Por isso dói, por isso que vai doer para sempre.
     Hoje eu me encontro tentando desviar desse caminho, que ninguém sabe aonde vai dar, recolhendo do chão pena por pena das minhas asas. Mas o que acontece depois de reunir todas elas? Eu não faço a minima ideia, mas vou continuar procurando e guardando-as nos bolsos, até o dia em que eu descubra como devolver a vida ás minhas asas, e voar rumo á felicidade perdida.

- Caliane Melo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

" Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero - : é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim. "

( Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Música para passarinho ouvir.

sábado, 21 de janeiro de 2012

" Esse Firmino sabe das coisas, viu! "

Sabe Firmino, eu continuo achando que a vida deveria me dar umas ferias, viver cansa, sabia? Sem falar, Firmino, que o mais cansativo dessa jornada é conviver com essas pessoas peçonhentas. Poxa vida, elas nunca ‘tão’ satisfeitas, ‘tão’ sempre tentando te mudar, te fazer uma criatura perfeita pra elas, não pelo meu próprio bem, mas pelo bem delas. Qualé Firmino, vai dizer que ‘ocê’ nunca quis que a vida fosse ‘igualin’ aqueles aparelhos que tem na casa do pessoal da capital? Aqueles lá que ‘ocê’ aperta o ‘pausi’ e para tudo, e quando ‘ocê’ já estiver descansado, aperta o ‘pray’ e continua de onde parou. Num seria uma belezura, Firmino? Aah, sabe o que eu acho que resolveria essa minha canseira? Pegar meu mochilão, colocar meus trecos dentro e cair na estrada! Não me pergunte pra onde eu iria, Firmino. Eu só queria ir pra um lugar onde ninguém me conhecesse e eu não conhecesse ninguém, porque aí eu iria poder me reinventar e me renovar. Depois que eu descansasse o meu corpo e essa minha alma, depois que eu arejasse a massa cinzenta, tirasse a poeira dos olhos, a fumaça dos pulmões e recarregasse as minhas baterias, aí sim eu voltava pro meu canto, pra minha gente. Daí eu acho que poderia ser mais feliz e fazer os outros mais felizes também. Oxee, ‘ocê’ ‘tá’ rindo do quê Firmino? Aha, achou a ideia boa, não é? Aposto que quando ‘ocê’ chegar em casa vai correr pra arrumar o seu mochilão também, eu sei. ‘Ocê’ é um cabra muito do esperto, Firmino. Mas agora voltando ao meu problema, pra onde eu poderia fugir Firmino? Japão, Paris, Tailândia, Moscou? Aah sim! Boa, Firmino, boa! Pois então Firmino, me vê uns biscoitos de milho desses aí e uma garrafa de suco de Caju e embala pra viagem, que essa noite mesmo eu vou me embora pra Pasárgada! Ô Firmino, ‘brigada’ viu, ‘ocê’ sempre sabe o que dizer.

- Caliane Melo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Primeira aula de vôo

     Nós dois estávamos sentados na calçada da minha casa, de vez em vez passava alguns garotinhos correndo atrás de pipas e algumas senhoras com sacolas cheias de produtos que o locutor do super mercado anunciava em promoção, permanecemos ali sem que nenhuma dessas pessoas notassem a nossa presença naquele fim de tarde. Ele continuava a escutar em silencio o que eu dizia, como se ele estivesse absorvendo cada palavra minha, processando sílaba por sílaba. Eu não tinha um ponto de fuga para olhar, tentava olhar nos olhos dele, mas estes estavam focados na formiga que subia pelo cadarço desamarrado do All Star. Foi assim durante uns quinze minutos até que o nó da garganta impediu a saída da minha voz. Ficamos alguns minutos sem que nenhum dos dois dissesse uma única palavra, até que ele se levantou, posou a mão no meu cabelo, como se quisesse mostrar que entendia perfeitamente o que eu sentia. Olhou dentro dos meus olhos úmidos e sorriu, como se tivesse a mais absoluta certeza que eu iria ficar bem e que logo logo eu estaria sorrindo novamente. E então com toda a doçura deste mundo, ou talvez, com uma doçura que não pertence a esse mundo, ele disse “ Não se esqueça que é na queda que se aprende a voar ”, e dos meus cabelos deslisou a palma da mão suavemente pelo contorno do meu rosto encharcado pelas lagrimas e foi embora, sem me abraçar ou me oferecer qualquer tipo de consolo, como se ele soubesse que um simples aconchego soltaria todas as lagrimas que até então estavam empoçadas nos meus olhos e libertaria os soluços que estavam amarrados, enlaçados ao nó da minha garganta. Foi então que eu percebi que ele já havia estado ali, no mesmo buraco negro que eu me encontrava.
     Passei o resto da noite pensando naquelas poucas palavras que ele me disse e depois de muito tempo, compreendi o que de fato elas significavam e que elas eram a chave pra me libertar das correntes pesadas prendidas aos meus calcanhares. Percebi então, que me apoiar ou me segurar no que me parecia firme, não me daria sustento para a vida toda, logo eu perderia as forças e seria arrastada por aquele furacão e cairia de cabeça naquele abismo. O que eu deveria fazer era me desprender de tudo, me jogar e bater as asas até levantar vôo. Aprendida a primeira lição eu teria que estar consciente que a cada próxima queda, o penhasco seria ainda maior e exigiria de mim mais coragem, mais bater de asas e seria assim até o dia que em meu mundo não exista mais abismos e assim finalmente eu poderei planar pelo céu sem medo de cair, assistindo o mundo lá de cima, junto com os pássaros.

- Caliane Melo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

E para enfrentar esse friozinho, eu sugiro uma xícara de café quente para esquentar o corpo e essa música para esquentar o coração!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012


Minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar. Tudo é você. Minha personalidade é você. Quando eu berro Strokes no carro ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma ironia barata. Tudo é você. Quando eu coloco um brinco pequeno ao invés de um grande. Ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Tudo é você. Eu sou mais você do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. E eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo, mesmo eu nunca tendo demonstrado isso. E, ainda assim, nunca, nunquinha, eu escrevi sequer uma palavra sobre você.

 (Tati Bernadi)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

" Por mais que a gente cresça, há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender. "

     Os anos se passaram, tanta coisa mudou, se transformou e eu ainda continuo sendo a mesma garotinha teimosa e sonhadora de tempos atrás. Os sonhos mudaram, os planos evoluíram e a imaginação tornou-se ainda mais infinita. Ainda gosto de andar descalça por aí, o meu cheiro preferido ainda é o de terra molhada e comer jabuticabas direto do pé ainda é a melhor coisa do mundo. E os meus medos? Aah, esses ainda são os mesmos. Continuo sentindo medo do escuro, mas agora o medo é do escuro da alma das pessoas e ainda,  acredite se quiser, tenho medo de crescer. Crescer e esquecer a minha alma de criança trancada em uma gaveta empoeirada e cheias teias de aranhas. Apenas uma coisa mudou pra valer. Antes quando eu caía e ralava os joelhos, passava  Merthiolate e pronto! Agora, quando caio quebro a cara, o coração e todo o corpo sente e para esse tipo de dor, não existe remédio que seja capaz de curar.
                                                                                                     
- Caliane Melo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O que acontece depois que se conhece o lado escuro e sombrio da alma? Trancar-se dentro de si mesmo é assumir o risco de ficar preso para sempre, de se afogar nas águas frias e se perder nas cavernas onde ninguém jamais ousou se aventurar a descobrir. "Quem vai me puxar para fora e mostrar que ainda existe luz, que ainda existe vida na superfície? Quem vai se arriscar, derrubando os portões de aço da minha alma, vasculhando cada centímetro obscuro para me encontrar e dizer que tudo ficará bem e que o sol me espera do outro lado? Quem poderá me salvar da insanidade de ser eu mesma?" - E pela décima quarta vez naquela semana, ninguém a respondeu. O único som que ela ainda conseguia ouvir, era o eco da própria voz.
                                                                                                                           - Caliane Melo.

domingo, 1 de janeiro de 2012

" Um par de asas por favor ".

     Aah! Quem me dera ser um passarinho. Poder voar nesse céu de primavera e saber cantar bonito. Já pensou? Acordar de manhazinha com toda a disposição do mundo. Sair por aí cantando suave na janela dos meus amores fazendo com que eles comecem o dia com um sorriso no rosto. Ai ai... passar o resto do dia voando e planando nessa imensidão azul, o vento batendo nos cabelos, digo, nas penas e com o canto infinitamente doce na ponta do bico, adoçar até mesmo os ouvidos mais duros. Seria formidável demais para a minha mente humana imaginar.
     É uma pena, pena mesmo. Olha só para mim! Grande demais para me pendurar nas janelas, afinada de menos para encantar ouvidos e muito pesada para flutuar entre as nuvens.
     Se bem que, seres humanos são quase pássaros. Pássaros que ainda não aprenderam a desenvolver suas asas e levantar vôo. Pássaros que mesmo sem a bela cantoria conseguem adoçar manhãs com sorrisos. Pássaros que mesmo sem saber, têm o céu inteiro nas mãos, nas asas.

  Muito prazer, Bem-ti-vi.
                                                                                                                   - Caliane Melo.

A gente escreve o que sente, do jeito que sente.

   Caro futuro leitor, antes de mais nada, quero que fique claro que eu não sou nem escritora nem poeta, não tive a sorte grande de nascer com esse dom. Sou só uma pessoa comum que tem a disposição uma caneta Bic, um caderno velho, um pouco de sensibilidade nas mãos, muita imaginação na cachola e um calorzinho palpitante no lado esquerdo do peito.
   Eu sei que isso não importa muito, mas eu tive três motivos para criar esse blog: A insistência de meus grandes amigos, a necessidade de esvaziar a mente, organizar as ideias e manter a ordem aqui dentro e a insatisfação em ter que deixar os meus textos escondidos, guardados só pra mim. Acho uma crueldade ver os meus escritos numa estante pegando poeira, envelhecendo dentro de uma livro qualquer ou trancafiado no fundo de uma gaveta cheirando a naftalina. Então pensei: “ Por que não libertar-los dessas gaiolas? “. E cá estou eu, me transformando em versos e me aventurando nesse mundo onde as palavras são nossa identidade.

   Sejamos todos muito bem vindos!
                                                                                                                           - Caliane Melo.