segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Love me tender, love me sweet. Never let me go.


    
      A casa continuava do mesmo jeito que ela havia deixado algumas roupas estendidas no varal, a vassoura encostada ao lado da porta dos fundos e um bilhete em cima da cama: “Bom dia Amor! Espero que tenha dormido bem. Não se esqueça de que estarei de volta na quinta que vem de tardezinha, mas se eu demorar a chegar põe o arroz pra esquentar e coloca o lixo lá fora que o caminhão vai passar antes do anoitecer. Beijos te amo aqui e em qualquer lugar do mundo.”.
    Pedro chegou em casa mais tarde do que planejara, era quarta feira e ele perdeu o jogo do Santos x Portuguesa, não era um jogo muito importante, mas ele queria ver como seu time se sairia com a sua mais nova contratação. Nesse momento nada disso importava. Ele estava sozinho e não tinha ninguém pra lhe fazer um cafuné depois do jantar, por falar em jantar, isso também não lhe importava mais. O telefone não parava de tocar, sem duvidas eram familiares querendo dizer que sentiam muito e que estavam ali para o que precisasse. Ele não atendeu nenhuma das ligações. Permanecia sentado no chão em frente à TV, descalço e com o bilhete nas mãos assistindo ao canal fora do ar. Parecia uma estatua, não chorava, não piscava, não amaldiçoava a Deus, e parecia não respirar.
     Nem o senhorzinho que assoviava um bolero no apartamento ao lado nem a vizinha da frente, Dona Jasmira que fazia os melhores pães de queijo do planeta – como costumava dizer a dona do bilhete, não sabiam que o rapaz bonito do numero 26 acabara de perder a esposa. Helena era uma moça jovem e sorridente, adorava coisas alaranjadas e tinha os cabelos da mesma cor enfeitados por uma presilha de flor. Ela adora Elvis e consequentemente fazia com que todos os seus vizinhos começassem a gostar desse ritmo empolgante da década de 60. O casal mais parecia melhores amigos do colegial, ninguém nunca os ouviu brigar, estavam sempre juntos e com aquele ar de cumplicidade. Agora Pedro não tinha mais cúmplice, nem álibi, estava só, como sempre temera estar.
     Pedro reparava na xícara de café borrada pelo batom rosa bordô que ela na pressa de chegar ao aeroporto esquecera-se de colocar na pia. Ela sempre quis viajar para Amsterdam e recebera uma ótima oportunidade devido ao seu trabalho. Pedro não poderia acompanha-la, mas topou espera-la em casa, afinal eram apenas nove dias e pelo menos não era tão distante quanto o Japão. Ela estava tão animada que quem estivesse perto dela era contagiada pela mesma emoção. Pelo menos umas 12 pessoas começaram a sonhar em conhecer Amsterdam também. Ele estava feliz por ela, feliz de verdade, mas algo o fazia sentir medo, ele temia tudo que pudesse tirar Helena do seu lado, mas não queria estragar a felicidade dela com bobagens.
     Na noite anterior, eles conversaram sobre a viagem:
- Mas você não vai demorar, né?
- Claro que não querido, são apenas nove dias. Vai passar rapinho, você vai ver!
- E se você achar que lá é o seu lugar?
- Meu bem, meu lugar é aonde você pisa.
 Beijou-lhe o rosto.
 Não importava o que ela dizia nada parecia desatar o nó que apertava na garganta de Pedro. Ele ficou quieto.
- Ei seu bobo, eu prometo que volto e não me demoro. E ai de você se não me esperar com um abraço bem apertado...
- Ai de mim se você não voltar!
 Ele falou para dentro, mas ela pode ouvir e dando-lhe mais um beijo disse:
- Ai de nós.
     Ai deles, ela não voltou. Na verdade ela nem chegou ao aeroporto. Talvez se ela não tivesse com tanta pressa, talvez se ela tivesse terminado de tomar seu café, talvez se o outro motorista não estivesse bêbado ela estaria a caminho da cidade dos seus sonhos pensando no homem da sua vida que já estava contando os minutos pra guardar no baú de seus braços o seu maior tesouro.
     Nessa altura Helena estaria lhe enviando um sms com algum trecho das musicas do Elvis e o faria ter vontade de ligar o som e tirar o pó dos moveis. Mas não, agora ela estava numa mesa gelada, com pessoas desconhecidas descobrindo seu corpo e fazendo anotações. Mas Pedro acreditava que ela em fim encontrara a Amsterdam que sempre sonhou, mas lá nunca seria o seu lugar, Pedro não poderia pisar lá, não ainda.
      Mas a vida continua, não é verdade? Fácil pra quem diz! Pedro ainda tinha coisas do que fazer, sonhos pra realizar e sabia muito bem disso, mas sem ela... Aah! Sem ela nada faria mais sentido! O café o perderia o gosto, a vitória dos Santos não teria tanta gloria, a vassoura perderia a função de microfone/ guitarra e o prendedor em forma de flor nunca mais sentiria a macies dos cabelos ruivos dela. Nada mais seria como antes, principalmente Pedro. Mas ainda tinha algo que ele teria que fazer: colocar o arroz pra esquentar.
     Take me to your heart. For it's there that i belong, and we'll never part. ♪♫
- Caliane Melo.
    

domingo, 2 de dezembro de 2012

A vida em conserva